Como prometido, segue o programa da disciplina, para apreciação de vcs.: peço encarecidamente que o leiam com atenção, para depois podermos discutir seus detalhes, em nossos próximos encontros.
Benvindos,
Benjamim
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE ARTES E COMUNICAÇÃO SOCIAL
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CULTURAIS E MÍDIA
Disciplina: Linguagens Não-Verbais (GEC 00110)
Professor: Benjamim Picado
Horário: 6as feiras, de 18:00 às 22:00
Local: Sala 216 – IACS-UFF
Dos Temas às Figuras da Discursividade Visual:
os regimes textuais e plásticos do fotojornalismo contemporâneo
Ementa: O campo das linguagens não-verbais e suas relações com as linguagens verbais. O espaço como campo de relações de linguagem. Espaço, cultura e códigos de localização e movimento. O corpo como campo de linguagem. Corpo, cultura e representações. A imagem e o estudo das formas de representação. A importância das linguagens não-verbais na cultura contemporânea.
Apresentação: No decorrer dos últimos anos, em minha pesquisa sobre os regimes de discurso do fotojornalismo, fiz um caminho de leituras e estudos sobre algumas referências teóricas da análise de materiais visuais, no campo da comunicação mediática, tendo em vista equipar-me para uma abordagem bem fundamentada dos regimes textuais associados às imagens visuais. No presente momento, proponho ensaiar a estrutura de apresentação dos últimos resultados dessa nossa pesquisa, tentando agora empregar os quadros teóricos dessa investigação na análise concreta de um determinado corpus empírico que representa esta vinculação necessária entre a manifestação visual e plástica da imagem fotográfica e sua hipotética regência pelos padrões discursivos próprios ao universo dos modernos meios de comunicação.
Pretende-se esboçar aqui um exame concreto dos regimes textuais que caracterizam os modelos de uma discursividade visual, especialmente conectada ao universo do fotojornalismo contemporâneo: do ponto de vista dos marcos teóricos dessa análise, já se examinou no decorrer dos últimos anos (em atividades de ensino, orientação e pesquisa) os possíveis vínculos entre uma abordagem dos regimes narrativos de diversos tipos de materiais expressivos (a partir do modelo estrutural de Roland Barthes), em combinação com problemas de uma orientação estética do olhar sobre o discurso visual (no programa semiológico de Umberto Eco) e prolongando-se em uma longa tradição de questões similares sobre a ordem discursiva das imagens, nas ciências da arte, em geral.
A combinação dessas referências teóricas e metodológicas da análise nos vai permitir, assim o ansiamos, um acesso fenomenologicamente mais rentável ao valor discursivo dos materiais fotojornalísticos: desejamos preservar neste exame as características propriamente visuais dos materiais fotográficos, sem perdermos de vista a necessidade de que também segmentemos nesses ícones as funções pelas quais neles se estabelecem os regimes textuais que caracterizam sua função propriamente comunicacional, no contexto mediático.
Até este momento, nos fixamos particularmente na questão dos regimes ao plástico-textuais nos quais encontramos articulada a rendição das ações, universo este definido como topos preferencial na história do fotojornalismo, no século XX: daqui para a frente, nos interessa ampliar o escopo desse olhar analítico sobre a discursividade visual fotojornalística, para explorar funções igualmente textuais em outros dois grandes universos tópicos da representação visual, a saber, a paisagem e o retrato, por sua vez tomados na condição de exemplares de figuras discursivas da estabilidade e da reflexividade próprias ao discurso reportativo. Trataremos dos detalhes desta análise tópica, no decorrer mesmo de nossas exposições, no decorrer do curso.
Objetivos: De modo mais geral, o propósito desta disciplina é o de oferecer ao aluno um conjunto de elementos conceituais e metodológicos para pensar a complementariedade entre o que certos autores identificam em separado nas representações visuais: de um lado, seus “efeitos de sentido”; de outro, seus “efeitos de imagem” (Chateau e Fresnault-Deruelle). Deseja-se estabelecer esta questão dos debates sobre a regencia semiósica da imagem, tomando como universo empírico de exploração a questão do discurso visual na fotografia (e mais especialmente, os regimes textuais característicos da imagem fotojornalística). Pretende-se estabelecer uma avaliação do problema da representação na fotografia, na perspectiva de determinadas questões que mobilizaram especialmente o campo das teorias do significado, das teorias estéticas, da história e das ciências da arte e das teorias da percepção.
Propomos uma abordagem dos hipotéticos modelos de uma discursividade visual do fotojornalismo, através do encontro de duas dimensões do fenômeno do iconismo fotográfico, que lhe seriam supostamente próprias: em primeiro lugar, a imediaticidade de sua significação, por sua vez ligada ao aspecto de registro físico (ótico e químico) que define a origem de sua instantaneidade (em jargão semiótico, esta dimensão de origem das imagens fotográficas justifica o discurso sobre sua supostamente essencial indexicalidade); em segundo lugar, sua dimensão de plasticidade (ou de modelação pictórica), associada aos aspectos de sua fruição e avaliação estética e visual, através de certos cânones culturais da experiência sensível (mais uma vez, no linguajar dos semioticistas, este aspecto destaca a relação entre a significação visual da fotografia e sua dimensão constitutiva de iconicidade).
Através de um percurso a certos temas visuais recorrentes no fotojornalismo contemporâneo (as ações e paixões, a paisagem e o retrato), visamos estabelecer um quadro das figuras de um hipotético sistema da discursividade visual, próprio por sua vez à produção textual do fotojornalismo; esse sistema se basearia no princípio da produção intencional de um sentido de participação testemunhal e vicária no universo das ações reportadas pela imagem e teria como elemento essencial o investimento discursivo (seja ele de origem narrativa, retórica ou reportativa) de todos os elementos plástico-icônicos que constituem o conteúdo das imagens fotográficas.
Metodologia e Avaliação: A disciplina será conduzida na forma de exposições temáticas, feitas pelo professor, em cada uma das sessões previstas para o curso, a partir dos textos indicados na bibliografia no curso, e na ordem proposta no cronograma de atividades, sendo conduzida integralmente pelo docente, com a possibilidade de intervenção dos estudantes, para pontuações e eventuais questionamentos.
Conteúdo Programático:
Unidade I: Horizontes teórico-metodológicos da análise dos motivos do discurso visual na fotografia: a inerência discursiva das imagens; imagens e significação, na semiologia estrutural (Barthes). Um excurso crítico no estruturalismo: linhas gerais de uma semiologia das mensagens visuais (Eco). Teorias da imagem e a dimensão semiósica do dispositivo de visualização: referência e indexicalidade nas teorias da fotografia (Bazin, Dubois e Schaeffer). As aventuras da iconologia e das ciências da arte: a pesquisa sobre os temas da representação e as matrizes formais das escolas da representação (Panofsky e Warburg).
Unidade II: A representação do movimento e do gesto humanos, na sua dimensão simultânea de ação capturada ou de rito pictórico: a questão dos motivos dinâmicos, na história da representação pictórica, dos pathosformeln (Warburg) até a instauração de uma experiência vicária de participação do espectador nas imagens arrestadas (Gombrich). A ação na imagem enquanto unidade da narrativa: como assimilar a semiologia à análise estrutural da narrativa (Barthes); modos da imagem dizer coisas: aspectualidade e discurso visual na representação pictórica (Lopes).
Unidade III: as situações visuais e o sentido pró-cênico da representação pictórica na fotografia e na pintura. Composição espacial e o drama da imagem: elementos de uma semiose poética da fotografia (Floch). Fixidez e animação: o jogo aspectual como elemento do discurso visual da fotografia (Lopes e Schneider/Picado). A significação narrativa dos motivos estáveis na imagem: a dimensão mito-funcional dos motivos da paisagem na pintura e suas relações com o discurso das ações no fotojornalismo (Marin e Picado).
Unidade IV: Das formas estáveis à reflexividade do discurso visual na fotografia: as funções poéticas e textuais da expressão fisionômica na fotografia e na pintura (Sontag). A máscara e o rosto: o retrato pictórico e o contexto das ações no discurso fotojornalístico (Gombrich); do cânone da pose ao retrato de circunstância (Costantini e Picado). Os níveis do extra-campo pictórico e as formas da conversação pela imagem no fotojornalismo: por uma pragmática do face-a-face na imagem (Dubois e Benjamin).
Referências Bibliográficas:
- Barthes, Roland. “A Escritura do visível”. In: O Óbvio e o Obtuso: ensaios críticos III. (trad. Lea Novaes). Rio: Nova Fronteira (1990): pp. 9, 42;
- Barthes, Roland. “Introduction à l’analyse structurale des récits ». In, et al. : L’Analyse Structurale du Récit. Paris : Seuil (1981) : pp. 7,33 ;
- Benjamin, Walter. "Pequena história da fotografia" (trad. Barbara Freitag) In et al.: Walter Benjamin. São Paulo: Ática ( ): pp. ;
- Caetano, Kati Eliana. « A aventura fotográfica partilhada”. In: Fronteiras. VII/3 (2005): pp. 206,213;
- Chateau, Dominique. “L’Indicialité: la question de la photographie”. In: Le Bouclier d’Achille: théorie de l’iconicité. Paris: L’Harmattan (1997): pp. 91,107 ;
- Clarke, Graham. “How to read a photograph?” In: The Photograph. Oxford: Oxford University Press (1997): pp. 27,40;
- Costantini, Michel. “Giotto, le théâtre figé : quelques processus d’analyse du décor et de la gestualité ». In : Degrés. 13 (1978) : pp. f, f-19;
- Currie, Gregory. “Photography, painting and perception”. In: Journal of Aesthetics and Art Criticism. 49/1 (1991): pp. 23,29;
- Eco, Umberto. “O Olhar Discreto: semiologia das mensagens visuais”. In: A Estrutura Ausente (trad. Pérola de Carvalho). São Paulo: Perspectiva (1976): pp. 97,184;
- Ginzburg, Carlo. “De A. Warburg a E.H. Gombrich: notas sobre um problema de método”. In: Mitos, Emblemas, Sinais (trad. Federico Carotti). São Paulo: Cia das Letras (1990): pp. 41, 94;
- Gombrich, E.H. “Standards of Truth: the arrested image and the moving eye”. In: The Image and the Eye: further studies in the psychology of pictorial representation. London: Phaidon (1982): pp. 244,277;
- Joly, Martine. “Image et discours”. In: L’Image et les Signes: approche sémiologique de l’image fixe. Paris : Nathan (1994) : pp. 131,177;
- Kjörup, Sören. « George Inness and the Battle of Hastings, or doing things with pictures”. In: The Monist. 58/2 (1974): pp. 216,235;
- Korsmeyer, Carolyn. “Pictorial assertion”. In: Journal of Aesthetics and Art Criticism. 43/3 (1985): pp. 257,266;
- Lopes, Dominic. « Aspect recognition ». In : Understanding Pictures. Oxford : Clarendon Press (1996) : pp. 111, 196 ;
- Mannings, David. “Panofsky and the interpretation of pictures”. In: British Journal of Aestetics. 13 (1973): pp. 146,162;
- Panofsky, Erwin. “Introdução”. In: Estudos de Iconologia (trad. Olinda Braga de Sousa). Lisboa: Estampa (1982): pp. 19,40;
- Picado, Benjamim. « A representação do gesto e o efeito de discurso na fotografia jornalística”. In: e-compós. 3/1 (2005)www.compos.org.br/ecompos/adm/documentos/agosto2005_benjamim.pdf);
- Todd, Jennifer. “Roots of pictorial reference”. In: Journal of Aesthetics and Art Criticism. 36/3 (1978): pp. 47,57.
Nenhum comentário:
Postar um comentário